Publicado por: lesbianornot | Agosto 29, 2008

Grupos de Auto-ajuda

 

O tema deste blog tem-me feito evocar a importância dos grupos de auto-ajuda, pois a ele chegam algumas almas, feridas pelo mesmo mal – dito amor não correspondido, ruptura amorosa mal resolvida (ou ainda em processo de cura), ou seja, dito de outra forma, coração partido.

 

Pensava nisto ontem e em como é importante ter um grupo de amigas com quem falar sobre o tema e aparece-me um contacto on-line a afirmar o mesmo….; a seguir vou ver um filme, e lá encontro um grupo de mulheres hetero reunidas com esse fim (neste caso dizer mal dos homens e dos ex).

 

Por isso, não me restava outra opção senão falar sobre este tema. Mas antes de lá chegar, ponho-me a pensar e pergunto porque se chamam grupos de auto-ajuda, quando a cura reside na ajuda que o outro nos dá: ao nos ouvir, ao mostrar que padece do mesmo mal e ao nos contar estratégias que utilizou para ultrapassar os seus problemas! De facto não acredito na panóplia das receitas dos livros de auto-ajuda, pois eles só acentuam o egoísmo e a convicção de que as pessoas se podem modificar única e exclusivamente com força interior. É comum a ideia que as forças do pensamento e da vontade conseguem moldar o mundo à nossa volta, como se pensar nas coisas pudesse atrair dinheiro, fama, amor, tudo. Receita mágica!

Depois existem ainda as pseudo misturas que juntam a Teoria Quântica a esta psicologia barata e nos incitam a mudar o tecido quântico com a mera força de vontade e com a força do pensamento. Ora eu julgo que os nossos padrões neurológicos e os nossos genes têm muita força, não que tudo esteja previamente determinado, mas a essência de uma pessoa nasce e morre com ela (é como se fosse o seu software) e quem tem um filho, vê como isto é verdade sem necessitar de mais explicações.

Mas voltando à “auto-ajuda”, independentemente da desadequação do seu nome de baptismo, vemos que ela consiste em recorrer aos OUTROS. E a teia que criamos em torno de nós, as nossas relações inter-pessoais e familiares são verdadeiramente o pilar da nossa existência e nessa medida sim, apelo à Teoria Quântica, porque, a nível “microscópico” criamos um campo unificado com todas as pessoas que nos rodeiam e que interagem connosco e é a qualidade dessas relações que nos torna humanos e empáticos. Só somos verdadeiramente humanos quando somos capazes de nos colocar na posição do outro e a incapacidade de o fazer, revela disfunções no campo emocional (atenção que sou engenheira e falo destes temas com mera intuição e linguagem própria da minha classe L).

Isto não significa que tenhamos sempre que aceitar passivamente as acções dos outros – reacções como raiva e aplicação de juízos de valor, são válidas na apreciação que possa fazer da relação. É saudável que possamos avaliar livremente as acções das outras pessoas, incluindo da ex, porque não somos a Madre Teresa de Calcutá e é válido o ajuízamento porque podemo-nos sentir defraudadas, podemo-nos sentir usadas, enganadas, injustiçadas, se é esse o caso.

Aliás, desvalorizar o outro, pode fazer e faz parte do processo de cura (por isso é que no filme elas diziam mal dos homens) – isto é: é humano, é normal, é banal e todos reagimos da mesma maneira. Nem sempre se tem que aceitar a decisão do outro, como prova do nosso amor, primeiro, porque se assim fosse, até podia parecer que estamos sempre à espera de uma migalha ou a querer provar que amamos e aguardamos e, por outro lado, a forma que o outro escolheu para se libertar de nós, nem sempre nos permite esta bondade intrínseca.

Aliás, é comum a argumentação barata do género, “se gostasses mesmo de mim, aceitavas a minha decisão“.

Compreendo a perspectiva quando duas pessoas se amam mesmo, mas chegam à conclusão que não é o momento, etc (isso já se passou comigo e hoje somos muito amigas), mas aquele argumento não passa de um pretexto quando nada mais houve do que uma canalhice e agora “dá jeito” que a outra seja bondosa e compreensiva  e ainda se preste a demonstrar que gosta!

 

Sejamos coerentes – queremos deixar de gostar? Então é melhor empurrarem as hormonas que vos fizeram burras para fora do vosso sistema!

 

 


Responses

  1. Isso faz-me lembrar a crónica do Lobo Antunes, de imadiato rebatida (lindamente, como sempre) pela Inês Pedrosa no Expresso. Dizia o ilustre escritor, para quem não tenho a mínima pachorra, que a filha havia acabado uma relação “a homem”. Tal postura (segundo a filha) traduzia-se pela lenga-lenga do costume: “não é nada contigo, o problema está em mim, não estou num bom momento de forma, etc etc..”. Como dizes aí acima, a canalhice do costume. Acontece aos melhores, e como tal, todas nós já vivemos os dois lados dessa moeda – deixar ou ser deixada, eis a questão. Além do tradicional amar ou ser amada, posto que ambas as coisas ao mesmo tempo só acontecem nas telenovelas da tvi. Então o que me leva a escrever aqui é o facto de ter acabado uma pseudo-relação há poucos dias e saber que meti água por todos os lados com essa treta de “não te quero magoar”, se calhar por não estar muito habituada ao papel. Uma coisa aprendi: não existem boas maneiras para pôr fim a algo que nos sufoca. Além disso, não há nada pior do que uma pessoa que mal nos conhece portar-se como se vivesse connosco um grande amor, naturalmente fruto da imaginação ou de uma transferência qualquer, carências afectivas, projecções, eu sei lá. De maneira que entrei em pânico com essa da auto-ajuda, não vá a minha ex ler o the secret e fazer algum exercício de força mental à espera que lhe caia nos braços, quando até é verdade que o problema não está nela, mas em mim. O “problema”, como na música da Vanessa da Mata, está nas irreais expectativas, o que torna tudo muito pesado. Dor de corno, afinal, não é privilégio de poucos, mas a dor mais universal das dores, e quem não a sentiu que atire a primeira pedra, welcome to the club! Não me julgues mal, sei bem colocar-me no papel do outro, mas também aprendi a não confundir esse sentimento com uma espécie de indulgência, o que não resolveria nada além de ser patético. O resto é retórica… Aliás, sobre as razões de uma separação (que vêm sempre à baila quando se dá ou se leva uma tampa) escrevi no meu blog o que havia para escrever. Passa por lá…
    Bjs,
    Luz

  2. Já lá tinha ido e pensei: ora encontrei alguém na posição inversa! e gostei da frase: “as razões, mesmo quando explicadas, são o que menos importa.”
    De facto, já o meu amigo Zezinho dizia que quanto mais se mexe na m. pior, mas o que queres? Eu sou racional e preciso de “patinar” para resolver. Ou melhor, acho que qualquer pessoa que se entrega tem dificuldade em largar, especialmente quando viu entrega do outro lado e de um dia para o outro, literalmente, perdeu tudo. Mas entendo o outro lado. Dizes bem. Todas lá estivemos uma vez ou outra, o que não me minora a dor, certo?🙂
    Obrigada pela outra perspectiva! Que me traga Luz! Beijos


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: